Primeiro médico de Jaguariúna, Dr. Frederico Pires Behmer completa 100 anos
- Gustavo Santos

- há 2 dias
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Poucos homens podem contar a própria história ao longo de um século inteiro. Menos ainda com a lucidez de quem se lembra dos detalhes, dos rostos, dos lugares e das transformações que testemunhou. No dia 19 de maio, Frederico Pires Behmer chegou aos 100 anos cercado por aquilo que construiu de mais valioso ao longo da vida: a família.
A celebração reuniu mais de 50 pessoas entre filhos, netos, bisnetos, parentes e amigos. Entre abraços, homenagens e lembranças compartilhadas, um momento chamou atenção pela raridade: a presença de sua única irmã, Hilda, de 103 anos. Lúcidos e bem-humorados, os dois irmãos dividiram a cena e o privilégio de atravessar juntos mais de um século de história.

Em sua chácara, cercado por quadros pintados por ele mesmo, fotografias de família e recordações acumuladas ao longo de décadas, Frederico revisita uma trajetória que se confunde com a própria história de Jaguariúna e da medicina regional.
Médico obstetra, ginecologista e anestesista, construiu uma carreira marcada pelo cuidado com gerações de famílias. E foi justamente em Jaguariúna, ainda nos anos 1950, que escreveu alguns dos primeiros capítulos dessa jornada. Ao lado da esposa, Lucy Pires Behmer, que atuou nos atendimentos infantis do primeiro posto de saúde do município, participou dos esforços pioneiros para levar assistência médica a uma cidade que dava seus primeiros passos rumo ao desenvolvimento.

Suas recordações ajudam a reconstruir uma Jaguariúna que já não existe mais: uma cidade formada por fazendas, ruas de terra, trilhos de trem, poucos serviços públicos e uma população predominantemente rural.
Muito antes da industrialização, dos condomínios e do crescimento urbano que transformaram a região, ele acompanhou de perto os desafios de um município recém-emancipado, marcado pela escassez de recursos e pelas dificuldades enfrentadas por grande parte da população.
Membro de uma das famílias pioneiras em Jaguariúna, Frederico manteve desde a infância uma relação estreita com o município. Morou em Pedreira e Campinas, mas frequentava a Fazenda Florianópolis, propriedade do tio Joaquim Pires Sobrinho, o tio "Quinzinho", e se recorda dos primórdios da cidade.
Os primeiros anos da saúde pública

Recém-formado em medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Frederico foi chamado para trabalhar em Jaguariúna pelo próprio Joaquim Pires Sobrinho.
A instalação do primeiro posto de saúde da cidade se confunde com a própria história política do município. O imóvel foi alugado por Joaquim Pires Sobrinho, o Quinzinho, tio de Frederico e primeiro prefeito de Jaguariúna em 1955, após a emancipação político-administrativa conquistada dois anos antes.
Os desafios eram enormes. A recém-criada cidade possuía estrutura limitada e poucos recursos financeiros para investir em áreas essenciais como saúde, educação e infraestrutura.
Foi nesse cenário que surgiu o primeiro posto de saúde, instalado em uma simples casa na Rua Sílvia Bueno, entre as ruas Cândido Bueno e Alfredo Bueno. A construção possuía características típicas da época, com varanda lateral, piso de lajotas cerâmicas e ruas de terra ao redor.
Uma fotografia preservada pela Casa da Memória, registrada durante uma Cavalaria Antoniana nas décadas de 1950 e 1960, ajuda a identificar o local onde funcionou o primeiro serviço público de saúde de Jaguariúna.

Ali, Frederico iniciou os atendimentos de uma população predominantemente rural e extremamente carente, ajudando a escrever os primeiros capítulos da saúde pública jaguariunense.
“Faltavam medicamentos, vacinas, equipamentos e recursos básicos para atender a população. Muitas famílias sequer tinham condições de comprar os remédios receitados ou garantir alimentação adequada dentro de casa”, recorda o médico.
Ao lado da esposa, a médica Lucy Pires Behmer, responsável pelo atendimento infantil e acompanhamento de recém-nascidos, formaram a primeira equipe de saúde da cidade.
Passados pouco mais de quatro anos, o casal se transfere para Campinas e lá Frederico inicia definiticamente sua carreira como médio obstetra, e na sequência um dos mais importantes anestesistas da época.
Da guerra para a medicina
Nascido em 19 de maio de 1926, Frederico carrega uma história marcada por coincidências dolorosas. Seu pai, Frederico Behmer, morreu vítima de um infarto aos 40 anos, apenas dois dias antes de seu nascimento.
“Até hoje ninguém sabe se eu nasci na época certa ou se foi o choque da morte dele que provocou o parto”, reflete o centenário.
Criado pela mãe, professora primária em uma época em que poucas mulheres trabalhavam fora de casa, cresceu entre Pedreira e Campinas. Ainda jovem, chegou a fazer curso para piloto durante o período da Segunda Guerra Mundial, mas acabou reprovado na seleção da Força Aérea Brasileira por não atingir a altura mínima exigida. O caminho acabou sendo outro.
Como gostava de cuidar das pessoas, fazer curativos e ajudar quem precisava, escolheu a medicina como profissão e ingressou na tradicional Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Foi ali que conheceu Lucy Pires Behmer, colega de faculdade que se tornaria sua esposa, companheira de profissão e parceira de vida.

“Eu era chefe de trotes. Fui dar trote nela e o trote durou o resto da vida”, sorri ao relembrar. Lucy faleceu há oito anos, aos 92 anos. Juntos construíram uma família formada pelos filhos Fernando, Frederico e Cacilda, e deles uma ramificação de seis netos e sete bisnetos .
Em Campinas, Frederico especializou-se em Obstetrícia e Ginecologia e passou a atuar na Maternidade de Campinas, onde permaneceu por cerca de dez anos acompanhando gestantes e realizando partos.
Também integrou o corpo clínico do hospital Beneficência Portuguesa de Campinas, ampliando sua experiência hospitalar e consolidando sua carreira médica.
Mais tarde, decidiu direcionar sua atuação para a Anestesiologia. A especialidade acabaria se tornando sua principal atividade profissional durante aproximadamente 35 anos.
A rotina era intensa. Em determinados períodos, manteve três empregos simultaneamente para garantir o sustento da família e a formação dos filhos. Um estudava em Piracicaba, outro em São Paulo e a filha no Rio de Janeiro.
Corpo e mente em movimento
Foi durante a carreira médica que Frederico começou a perceber pequenas falhas de memória. Realizava consultas normalmente, chegava ao diagnóstico correto, mas ocasionalmente esquecia o nome de medicamentos no momento da prescrição.
Preocupado, procurou ajuda especializada e passou por exames em Campinas e São Paulo. Nenhuma alteração significativa foi encontrada.
A recomendação dos médicos foi simples: manter o cérebro permanentemente ativo.
A partir daí, adotou hábitos que conserva até hoje. Leitura diária, escrita, palavras cruzadas, exercícios de associação de ideias e estímulos constantes à memória passaram a fazer parte da rotina.

Décadas depois, aos 100 anos, continua lendo, escrevendo, desenhando e acompanhando assuntos do cotidiano com interesse. “Tem gente de 80 anos pior do que eu”, comenta, bem-humorado.
A disciplina intelectual sempre caminhou ao lado dos cuidados físicos. Desde a infância, Frederico levou uma vida ativa.
As brincadeiras aconteciam nas árvores, nos campos e nas fazendas da região. Depois vieram as corridas, os jogos ao ar livre, as caminhadas e a natação. Durante o período escolar, chegou a nadar mil metros por dia.
“Trepar em árvore é a melhor ginástica que existe”.
Hoje, aos 100 anos, continua frequentando academia duas vezes por semana acompanhado por uma personal trainer.
Na data do seu aniversário, Frederico recebeu uma homenagem surpresa da academia onde se se exercita, em Campinas. A celebração carinhosa rendeu, inclusive, uma reportagem produzida pela emissora EPTV Campinas - destacando sua disposição física.
O artista por trás do médico

Pinturas espalhadas pela casa revelam outro lado pouco conhecido do médico centenário.
Boa parte dos quadros que decoram a residência foi produzida por ele próprio. Paisagens, cenários urbanos e lembranças aparecem retratadas em pinceladas delicadas, resultado de uma paixão cultivada ao longo de décadas. Nunca abandonou o hábito de desenhar e criar.
A própria chácara onde vive também guarda marcas de sua dedicação. O imóvel foi construído por ele ao longo de quatro anos, numa época em que muitas famílias de Campinas mantinham chácaras para passar os finais de semana longe da cidade. Hoje, o imóvel de 8 mil metros quadrados é um ‘oásis’ no bairro Vila Bella.
Jaguariúna de ontem e de hoje
Durante a conversa, Frederico mistura lembranças pessoais com imagens quase cinematográficas da antiga Jaguariúna.
Recorda quando a ligação ferroviária entre o centro de Jaguariúna e Guedes era aberta com enxadas, carroças e burros transportando terra. Lembra das fazendas leiteiras que abasteciam a cidade, e das dificuldades enfrentadas pelos produtores rurais.
Também se recorda das poucas ruas existentes, dos bairros formados por sítios e da ausência de qualquer atividade industrial.
“Hoje fazem em três meses o que naquela época demorava anos”, observa.
Ao longo de um século de vida, viu Jaguariúna deixar de ser uma pequena cidade rural para se transformar em um dos municípios mais desenvolvidos da região.
Apesar das mudanças, guarda carinho profundo pela cidade onde iniciou a carreira e ajudou a cuidar de uma população esquecida pelas limitações da época.
Um século de histórias



Além da medicina, Frederico construiu uma grande família. É pai de três filhos, avô de seis netos e bisavô de sete bisnetos. A longevidade parece fazer parte da história familiar. Sua irmã Hilda já completou 103 anos e também mantém a lucidez admirada por familiares e amigos.
Na última semana do mês de maio, Frederico reuniu mais de 50 pessoas para celebrar seu centenário em um salão de festas.
Mas o que mais chamou sua atenção não foi o bolo, as homenagens ou a marca histórica dos 100 anos.
“Ninguém usou celular”, observou o aniversariante. “Isso significa que existia conversa. Quando as pessoas têm comunicação de verdade, não precisam do celular.”
Em um tempo marcado pela velocidade e pelo esquecimento, Frederico permanece como um lembrete valioso: algumas histórias não pertencem apenas a quem as viveu. Pertencem à memória coletiva de toda uma comunidade. E, por isso, aos 100 anos, sua presença continua não apenas viva, mas indispensável.




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