Jaguariúna fortalece rede de adoção e transforma vidas e histórias
- Gustavo Santos

- há 52 minutos
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Neste 25 de maio, data em que é celebrado o Dia Nacional da Adoção, Jaguariúna reforça um movimento que vem ganhando força nos últimos anos: o de ampliar o olhar da sociedade para adoções legais, seguras e, principalmente, para crianças e adolescentes que historicamente enfrentam mais dificuldades para encontrar uma família.
A cidade tem se destacado por meio do trabalho desenvolvido pela Vara da Infância e Juventude da Comarca de Jaguariúna — que também atende Santo Antônio de Posse —, pelo Grupo de Apoio à Adoção (GAPA), além da atuação integrada do Tribunal de Justiça, Ministério Público, equipes técnicas e rede de assistência social.
No último domingo (24), uma comitiva de Jaguariúna esteve presente na IX Caminhada pela Adoção, realizada na Avenida Paulista, em São Paulo, reunindo cerca de 3 mil pessoas e mais de 20 grupos de apoio à adoção de todo o Estado. A delegação jaguariunense contou com 32 participantes, entre acadêmicos de Psicologia, estagiários do GAPA, voluntários e pessoas habilitadas para adoção.

Mudança no perfil das adoções
Há 17 anos atuando na Vara da Infância e Juventude da Comarca, a juíza Ana Paula Colabono Arias afirma que a realidade da adoção mudou significativamente ao longo das últimas décadas.
Segundo ela, no início de sua atuação, a maior parte das adoções envolvia crianças pequenas, geralmente de até cinco ou seis anos. Casos envolvendo adolescentes, crianças mais velhas, grupos de irmãos ou crianças com deficiência, frequentemente precisavam ser encaminhados para adoção internacional devido à dificuldade de encontrar famílias no Brasil.

“Hoje, eu consigo colocar rapidamente para adoção crianças de 9 ou 10 anos, algo que antes era muito difícil”, inicia a magistrada, em entrevista concedida ao O Jaguar nesta segunda-feira (25).
Ela atribui essa transformação às campanhas de conscientização promovidas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), pelo Tribunal de Justiça de São Paulo e, principalmente, ao trabalho dos grupos de apoio à adoção.
“O GAPA faz um trabalho maravilhoso na conscientização dos pretendentes sobre a questão da idade e das exigências. Muitas pessoas que estavam cadastradas buscando crianças de até dois anos passaram a se abrir para crianças mais velhas”, destaca.
Cadastro nacional amplia possibilidades
Outro fator apontado pela juíza como decisivo para a evolução dos processos é o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), que unificou os cadastros em todo o país e facilitou o encontro entre crianças disponíveis e famílias habilitadas.
Atualmente, casais de qualquer região do Brasil podem adotar crianças de outras cidades e estados. A magistrada cita, por exemplo, o caso recente de um casal de Palmas (TO) que iniciou o processo de aproximação com um grupo de irmãos acolhidos na comarca após contato realizado pelo cadastro nacional.
Hoje existe muita troca entre os grupos de apoio e o cadastro nacional possibilita que casais inscritos em qualquer lugar do país possam adotar crianças do Brasil inteiro.

Os dados da Comarca de Jaguariúna revelam avanços importantes na área.
Somente em 2025, 11 crianças e um adolescente foram colocados em famílias substitutas. Nos últimos cinco anos, foram 33 adoções concluídas e outras nove estão em fase final de formalização, totalizando 42 crianças e adolescentes inseridos em famílias adotivas.
Atualmente, a comarca possui 23 casais habilitados para adoção — entre eles um casal homoafetivo feminino e um casal homoafetivo masculino.
Por outro lado, ainda existem crianças e adolescentes aguardando uma família. Hoje, a comarca possui uma criança e cinco adolescentes, entre 12 e 17 anos, destituídos do poder familiar e disponíveis para adoção. Há ainda um adolescente e cinco crianças com suspensão do poder familiar, que futuramente poderão ser encaminhados para família substituta.
Para a juíza, a principal dificuldade continua sendo alinhar o perfil desejado pelos pretendentes com o perfil real das crianças acolhidas.

Ana Paula também observa que a própria sociedade amadureceu sua visão sobre o tema, especialmente em relação à adoção tardia. “Muitas famílias perceberam que é possível adotar crianças maiores. Existia muito aquela ideia de que era preciso criar desde pequeno para ‘formar do seu jeito’. Isso mudou bastante.”
Como exemplo, a juíza relembra o caso de uma adolescente de 16 anos acolhida pela comarca e adotada por uma família do Rio de Janeiro após participação no programa Adote um Boa Noite, do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O projeto divulga perfis de crianças e adolescentes com mais dificuldade de colocação em família substituta, especialmente adolescentes, grupos de irmãos e crianças com deficiência. Desde sua criação, em 2017, o programa já contribuiu para mais de 120 adoções em todo o estado.
Trabalho humanizado e conscientização

A psicóloga judiciária da comarca e coordenadora do GAPA, Helem Sandra Albino, destaca que o Dia Nacional da Adoção é um momento importante para ampliar o debate sobre o direito à convivência familiar.
“A realidade da adoção no Brasil revela um desequilíbrio matemático alarmante: para cada pessoa habilitada a adotar, existem mais de cinco crianças ou adolescentes vivendo em unidades de acolhimento e disponíveis para a adoção”, explica.
Segundo ela, o desafio está justamente no perfil das crianças que aguardam por uma família.
“As crianças com mais de 10 anos, com irmãos ou com alguma deficiência ainda enfrentam dificuldades para serem adotadas. A adoção dessas crianças é uma chance de construir laços, fortalecer famílias e oferecer um futuro de oportunidades.”
Helem também reforça que Jaguariúna vem desenvolvendo um trabalho próximo e humanizado por meio do GAPA, envolvendo acolhimento, orientação e conscientização de famílias pretendentes.
Direito de viver em família
Ao final da entrevista, a juíza Ana Paula fez um apelo para que a sociedade reflita sobre o direito de toda criança crescer em um ambiente familiar seguro e afetivo.
“É importante divulgar a adoção e também a entrega voluntária, que é um ato legal e acolhido pelo Tribunal de Justiça. E para as pessoas que desejam construir uma família, procurar a Vara da Infância e Juventude do município onde residem”, orienta.
Neste Dia Nacional da Adoção, Jaguariúna se soma ao movimento que busca transformar histórias marcadas pela vulnerabilidade em trajetórias de pertencimento, afeto e novas oportunidades.




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