Quaresma: o tempo de penitência que moldava gerações em Jaguariúna - por Tomaz de Aquino Pires
- Tomaz de Aquino

- há 2 dias
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Depois do Carnaval chega-se à Quaresma. A abertura deste período de 40 dias acontece na Quarta-feira de Cinzas. Eu era coroinha e por isso não podia participar dos matinés de Carnaval. Eles aconteciam na Sociedade Amigos de Jaguariúna, salão social que ficava na esquina das ruas Alfredo Engler com Cel. Amâncio Bueno. Ficava vizinho da Padaria dos Gottardo.
Na 1ª sexta-feira do mês de fevereiro não podíamos comungar, pois Seu vigário, Padre Gomes não nos dava absolvição, pois participaríamos dos bailes. Mas ele dizia, consolando-nos, volta em março, daí você comunga. E assim eu fazia! A Igreja católica anterior ao Concílio Ecumênico Vaticano II era muito piedosa.
Quaresma era verdadeiramente tempo de oração, penitência, jejum e abstinência de carne. Isto acontecia na quarta-feira de cinzas e em todas as sextas-feiras daquele período. Eram 40 dias de recolhimento, orações próprias a que a Igreja chamava seus fiéis a fim de refletir sobre a transitoriedade da vida, a necessidade de voltar-se para Deus, arrepender-se de seus pecados, buscar o perdão, mas antes perdoar sempre ao próximo.
Era piedoso preparo para a Páscoa da Ressurreição do Senhor Jesus. O Carnaval terminava na terça-feira. Os foliões que fossem ao baile naquela noite eram advertidos pelos Pais e Avós que dançassem até à Meia-Noite, apenas. Pois já adentrava a Quaresma.
Segundo os costumes antigos não se dançava naquele período. Os clubes não agendavam bailes e os noivos não casavam. Todos os católicos procuravam assistir à cerimônia oficial da Quarta-Feira de Cinzas, como acontece até hoje.

O sacerdote impunha cinzas na fronte e dizia: “Memento, Homo, qui pulvis est et in pulvis reverteris. Lembra-te, Homem, que és pó e ao pó retornarás”. Nos anos de 1950 e 1960 Padre Gomes chamava a todas as Associações Religiosas e coroinhas para o piedoso exercício da Via–Sacra já durante os folguedos carnavalescos.
A Igreja fazia um Retiro Espiritual com grandes pregações. E intimava-os a não frequentar tais diversões profanas. Repetia constantemente no seu sotaque baiano: "O baile é uma córrrda que o dèmônio arrasta para o inférrrno”. Ele repetia São João Batista Maria Vianey, o Cura D’Ars de França.
Na Quaresma havia Via-Sacra às segundas, quartas e sextas, à noite. Todas as imagens dos santos eram cobertas com cetim roxo nestes 40 dias. Na Semana Santa, os Santos do Altar Mor eram cobertos por cetim branco. Os altares ficavam despidos de flores.
Na Via-Sacra, o sacerdote percorre as estações representadas por quadros , nas laterais da Igreja. Eles mostram a Jesus carregando a cruz até o Calvário, sua crucifixão e Morte. À sua frente, debaixo do respectivo quadro, ficavam os coroinhas paramentados. Um, no centro, suspendendo a Cruz. Outros, nas laterais com castiçal com vela acesa.
O Sacerdote, diante da Cruz ia fazendo em cada estação várias genuflexões, proclamando orações e entoando jaculatórias em Latim. Coro e povo respondiam cantando e orando. A Semana Santa era precedida pela “Semana da Paixão” Os sinos tangiam às 21 horas e os católicos rezavam pela conversão dos povos. Igreja de muitas cerimônias e procissões.
Na Sexta-Feira Santa, cozinhava-se com óleo vegetal e não com banha de porco. Católicos frequentavam as cerimônias da igreja. Ninguém trabalhava! Muitos fumantes não fumavam. Outros não comiam doces ou carnes na Quaresma. Muitos homens não raspavam a barba.
Penitências! Mortificações! Confissões! Dar o Perdão! Era piedoso processo de preparar-se, purificar-se para a Páscoa, a Ressurreição de Cristo.

Autor: Tomaz de Aquino Pires, professor e coordenador da Casa da Memória Padre Gomes, de Jaguariúna.




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