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Há 20 anos, a Maria Fumaça voltava à antiga Estação de Jaguariúna

Foto do escritor: Gustavo Santos
Gustavo Santos
há 3 horas
4 min de leitura

Faz exatos 20 anos que o apito da Maria Fumaça voltou a ecoar na antiga Estação Ferroviária de Jaguariúna. Em 6 de outubro de 2006, a composição da ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária) cruzou o Rio Jaguari e a Avenida Marginal sobre uma ponte-viaduto de concreto e reencontrou a estação, hoje Centro Cultural.


A obra, inaugurada pelo então prefeito Tarcísio Cleto Chiavegato, devolveu o trem ao centro da cidade e, para muitos, inaugurou a vocação turística do município.


A ponte foi também um símbolo de virada. Ela foi construída 22 anos depois da implosão dos pontilhões da ferrovia sobre a Rua Cândido Bueno, em 1984, que interromperam o trilho para que Jaguariúna se expandisse, segundo o primeiro Plano Diretor e o plano de expansão da cidade na época.

Momento da detonação dos pontilhões ferroviários na década de 1980 - Fotos: Acervo Casa da Memória de Jaguariúna
Momento da detonação dos pontilhões ferroviários na década de 1980 - Fotos: Acervo Casa da Memória de Jaguariúna

A estação, sem trens regulares, já tinha ganhado outros usos: abrigou a primeira creche municipal e, depois, foi restaurada e transformada em centro cultural, com biblioteca e museu ferroviário. Ironicamente, Tarcísio, que em 1984 era vice-prefeito na gestão que derrubou os pontilhões, foi o prefeito que, mais de duas décadas depois, levou o trem de volta.


Se a cidade abriu espaço ao crescimento industrial a partir dos anos 1980, duas décadas depois o município precisava pensar o caminho inverso: como trazer o turismo de volta. Daí surgiu a ideia de retomar o passeio da Maria Fumaça até Jaguariúna, até a estação, agora Centro Cultural.


Uma reunião, um projeto simples


A volta do trem ao centro nasceu do desejo antigo da ABPF e da comunidade. Desde a implosão, o passeio terminava na Ponte da Maria Fumaça, e voltar à estação era um sonho que ninguém julgava possível. Segundo Hélio Gazetta, diretor da ABPF, o projeto começou numa conversa à mesa do botequim da estação, que reuniu o prefeito Tarcísio (em seu retorno ao cargo, gestões de 2001 a 2008), o engenheiro Odilon Monteiro, representantes da associação e outros envolvidos. Os desenhos iniciais saíram em guardanapos. "Ali já nasceu o pré-projeto", diz.

Era uma proposta aparentemente simples: erguer uma estrutura que permitisse ao trem passar sobre o rio e a avenida e chegar à estação. Mas devolvia à Maria Fumaça o passeio até Jaguariúna, e foi decidida ali. Depois, o engenheiro levou a ideia à prefeitura, onde o projeto foi refinado. Da conversa à inauguração, passou cerca de um ano.


O arquiteto Joaquim Caetano de Lima Filho, responsável pelo projeto de readequação do leito férreo, explicou em entrevista de 2007 a concepção da obra. Ela tinha uma tripla função: transpor o Rio Jaguari, passar sobre a principal avenida da cidade e criar um elemento urbano que remetesse ao percurso do Circuito das Águas.



A ponte nova foi erguida sobre a antiga, com o alongamento dos pilares existentes, e mantém "dois tempos claramente identificados": o de 1945 e o de 2006. Tudo precisava caber no orçamento disponível. Um pilar escultórico marca a curva onde o passageiro tem a primeira visão panorâmica da cidade.


A obra foi viabilizada por convênio entre a prefeitura e a ABPF, que atuou como OSCIP e repassou os recursos. Os números, segundo os textos do historiador Tomaz de Aquino Pires:

  • Custo: R$ 1,5 milhão.

  • Extensão: ponte ferroviária de 600 metros e leito de 1.200 metros.

  • Concreto: mais de mil metros cúbicos.

  • Trilhos e dormentes: doados pela ABPF.

Gazetta destaca que a obra foi "enxuta", mas pensada sob medida para a composição. Há detalhes técnicos como por exemplo uma palmilha de borracha sob os trilhos, para reduzir a vibração.

O dia da primeira travessia


No dia da inauguração, a locomotiva fez um teste com carga, seguida de um vagão-plataforma com pessoas. Gazeta admite que sentiu medo da altura. "Eu acabei deitando e fiquei olhando embaixo pra ver o comportamento das rodas pra entrar na curva", relembra.


Ao chegar à estação, o apito emocionou quem trabalhou na obra e quem acompanhava. Para ele, ninguém imaginava mais ver aquilo depois do que havia acontecido no passado.


A estação, restaurada a partir de meados dos anos 1980 sob o comando do vice-prefeito e diretor de Patrimônio Histórico Pedro Abrucês, abrigou a Biblioteca Municipal, o Museu Ferroviário, a sede da ABPF e um centro de informações. O prédio foi tombado pelo Condephaat em 2015. Em 2008, ao fim do terceiro mandato de Tarcísio, a Câmara Municipal batizou o viaduto como Pontilhão Prefeito Tarcísio Cleto Chiavegato.



Do café à desativação


Para entender o tamanho da volta, é preciso recuar até o café. A partir de 1875, a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro passou a recolher a produção da região de Mogi Mirim e a substituir o transporte animal. O grão seguia até Campinas e, de lá, até o porto de Santos. A estação original, a do Jaguary, ficava às margens do rio.


Nas primeiras décadas do século XX, a Mogiana encurtou seus percursos e alterou o traçado. Em 15 de dezembro de 1945 foi inaugurada a nova Estação de Jaguariúna, na Rua Maria Ângela. Com ela vieram a segunda ponte sobre o Jaguari, hoje conhecida como Ponte da Maria Fumaça, e dois pontilhões sobre a Rua Cândido Bueno. O mais alto servia à linha-tronco; o mais baixo, ao ramal de Amparo. A primeira ponte e a estação de 1875 foram desativadas.


Até o início dos anos 1970, a estação viveu seu auge, com oito trens por dia, bar, sala de espera e vendedores oferecendo frutas e artesanato aos passageiros nas janelas. O ramal de Amparo parou em 1967. A Mogiana foi incorporada à Fepasa em 1971, e a estação acabou desativada. Entre 1977 e 1982, o prédio abrigou a primeira creche municipal. A ABPF, que explorava a linha turística entre Anhumas e Jaguariúna, passou a guardar locomotivas e carros no pátio.





 
 
 

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